Criada há quatro anos, a
categoria que formalizou atividades profissionais de microempreendedores
é a porta de entrada para o ramo empresarial e o primeiro degrau na
escala de sucesso
Marina Schmidt
MARCELO G. RIBEIRO/JC
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Franco migrou de uma categoria para
outra ao aumentar o faturamento
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Aos 19 anos, Felipe Batista Franco
já reunia as principais características de um empresário de sucesso:
tinha metas bem definidas, iniciativa, comprometimento, estava disposto a
correr riscos e, principalmente, a buscar oportunidades. No caso dele, a
intenção era ter um negócio próprio, e a oportunidade veio a partir do
cadastro como Microempreendedor Individual (MEI). Ele sabia que seria
uma fase transitória, pois tinha o objetivo já traçado de ter uma
empresa mais expressiva e com faturamento maior. Hoje, aos 21 anos, ele é
microempresário, tem seis funcionários e prevê passos maiores para o
futuro. Para ele, o MEI abriu as portas e garantiu subsídios financeiros
para sustentar o sonho, que é comum a todo empresário: crescer.
Formado
em 2010 como técnico em informática, Franco atuava como instalador de
TV por assinatura, área que julgou vantajosa para exploração de um
negócio. No ano seguinte, ele já estava inscrito no MEI como empresário
no ramo de comércio e varejo de eletrônicos. Durante sete meses, tocou o
negócio enquanto se estruturava para se tornar um prestador de serviço
vinculado a uma grande empresa de TV por assinatura. A espera foi curta,
e o negócio prosperou como planejado. “Faz um ano que migrei para
microempresário e hoje meu faturamento é bem maior”, avalia. “Quando eu
abri a loja, em 2011, como MEI, eu já estava preparado para dar esse
salto”, destaca.
A gerente de atendimento individual do Sebrae
Rio Grande do Sul, Viviane Ferran, salienta que a orientação aos
cadastrados no MEI revela que “muitas empresas crescem de uma forma
significativa, têm sucesso”, mas que é preciso ser persistente e buscar
informação para garantir mais chance de acertos. A autoconfiança e a
independência são outros aspectos que condizem com o perfil de um
empresário que alcançou suas metas. “As pessoas aparecem aqui e dizem
que elas não têm uma empresa, é só um negocinho. Precisamos
conscientizar que esses pequenos negócios são empresas”, reforça.
Franco, apesar de bem jovem, fala como um empresário que errou e acertou
e soube aproveitar bem as duas experiências, mas, mais do que isso,
demonstra sensatez quando avalia as próprias escolhas.
“Eu fui
na cara e na coragem. Não tinha conhecimento em negócios e não me
preparei muito. Nunca tive tempo para organizar as ideias e planejar,
mas, mesmo assim, deu tudo certo, só que eu cometi vários erros”,
pondera. “Na época, financeiramente era mais viável ingressar como MEI e
isso ajudou muito nas finanças para o meu atual negócio”. Mas, a todo o
momento, ele se dispõe a reformular as próprias estruturas e ir à luta
se for o caso. Mais uma vez, ele se ajusta às características apontadas
por Viviane, que lembra a importância em “planejar sempre, ajustando o
negócio com o passar do tempo”.
“Eu estava mais condicionado a
ficar no escritório e tinha uma equipe que ia à rua vender nosso
produto, mas percebi que alguns não estavam dando retorno e, no mês
passado, demiti quatro funcionários. O custo foi alto, mas eu mesmo
estou fazendo o trabalho deles”, comenta. Seguindo a lógica de que “é o
olho do dono que engorda o gado”, ele tem garantido a média de vendas no
mesmo padrão, entre 80 e 100 pacotes de TV por mês, com uma equipe que
passou de 10 para seis funcionários. “O que eu fazia com cinco pessoas,
estou dando conta sozinho e tenho uma equipe muito boa que está comigo.
Cuidando de perto, eu tenho mais resultado”.
Focado no futuro,
Franco garante que o negócio “tem prazo de validade”. As portas que
foram abertas a partir do MEI, para ele, tendem a se expandir cada vez
mais. “Penso que até 2016, por conta dos eventos esportivos, esse
mercado ainda vai ser lucrativo, mas eu intenciono em mantê-lo por um
período breve e, depois disso, investir em um novo negócio, mas ainda
estou avaliando em qual ramo.”
Registro garante renda e domínio do próprio tempo
Inscrita
no MEI há dois anos, a vendedora de roupas e perfumes Camila de Sousa
Silva, 28 anos, lista uma série de vantagens que obteve desde que viu o
caminhão de atendimento do Sebrae e decidiu buscar informações sobre
formalização. A medida permitiu acesso às instituições financeiras,
garantias de direito e visibilidade para o negócio que mantinha há pouco
tempo. “Foi tudo muito rápido, eu e meu marido entramos no ônibus e em
coisa de 10 minutinhos eu já sai com o meu CNPJ e com os documentos para
pagamento dos primeiros encargos. É muito bom estar formalizado e abre
muito as portas”, ressalta.
Mãe de duas crianças, Camila lembra
de quando era secretária e da mudança na vida da família, que foi
substancial a partir da ousadia em manter o próprio negócio. “Eu
ganhava pouco e não tinha tempo para nada. Hoje, eu passo mais tempo com
a minha família, ganho muito mais e tenho tempo para fazer coisas que
eu não conseguia fazer antes, como academia”, menciona.
O
faturamento do MEI é modesto se comparado ao de empresas com outro
enquadramento. Por ano, o microempreendedor não pode faturar mais do que
R$ 60 mil, mas o valor, por enquanto, atende bem às necessidades da
família. Camila, o marido e os dois filhos se mantêm com os ganhos do
negócio, que chega quase ao teto do estabelecido para a categoria. “Por
mês, a gente ganha entre R$ 3,5 mil e R$ 5 mil, chegando a uma média de
R$ 50 mil por ano”, contabiliza Camila, que tem um público seleto como
clientela. “Vendemos roupas originais de marcas para advogados, médicos e
empresários”, conta.
As perspectivas de crescimento são boas.
Atualmente, Camila fotografa as roupas que comercializa e as divulga na
página pessoal do Facebook, atitude que se mostrou promissora. “Estamos
fazendo um site e, claro, pensamos em expandir, abrir uma loja no
futuro”, salienta.

Informação é uma das chaves para o sucesso
FREDY VIEIRA/JC
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| Camila aumentou vendas em 40% com ajuda do microcrédito |
Os
microempreendimentos são significativos no Brasil e, só em relação aos
MEIs, englobam um universo com mais de 3,1 milhões de empreendedores –
cerca de 170 mil no Rio Grande do Sul. De acordo com estudo Global
Entrepreneurship Monitor (GEM), os micronegócios contribuem com 20% do
Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, representam 99% das empresas de
serviços, 99,1%, das de comércio e geram 60% dos empregos formais no
Brasil. Os números comprovam o potencial do segmento, e as oportunidades
de crescimento são muitas, mas o almejado sucesso dos empreendedores
não tem receita pronta. O principal ingrediente para ser bem-sucedido,
no entanto, é possível indicar: informação.
Cristiano Cunha de
Melo, contador-sócio da Segalin e Melo Escritório de Contabilidade, é um
dos profissionais cadastrados no Rio Grande do Sul para prestar
atendimento gratuito aos microempreendedores. Ele é enfático ao destacar
que o conhecimento só tende a melhorar uma ideia de negócio ou indicar
que o caminho não é o mais adequado. “O ideal é que o microempreendedor
procure um escritório de contabilidade para orientá-lo antes de
inscrever-se na categoria”, sugere. Os ganhos são inúmeros, a começar
pelo cadastro, emissão dos primeiros documentos e indicações que podem
tornar o negócio mais viável economicamente. Os contadores cadastrados
no Portal do Empreendedor, no qual é feito o cadastro inicial do MEI,
prestam serviço gratuito de inscrição, emissão de boletos de pagamento e
a primeira declaração de rendimento.
Antes de buscar a
inscrição, no entanto, Viviane Ferran, gerente de atendimento individual
do Sebrae Rio Grande do Sul, orienta sobre a importância de estruturar
um plano de negócios sobre o empreendimento, processo que é orientado
gratuitamente pelo Sebrae. “Falta de planejamento e gestão são as
maiores dificuldades que os empreendedores enfrentam, e a capacitação
auxilia nesse processo”, defende. Esse é um atendimento muito valioso
para o empresário, já indica uma série de procedimentos, desde a
estrutura do mercado até a formação de preços do produto, passando pela
análise de custo, receitas e fluxo de caixa.
Para quem quer
avaliar bem os caminhos antes de dar o primeiro passo, o Sebrae
disponibiliza cursos gratuitos presenciais e a distância (no portal
ead.sebrae.com.br). “Geralmente, esse empreendedor mistura muito as
finanças pessoais com as da empresa. Essa é uma dificuldade expressiva
nos atendimentos que prestamos”, exemplifica Viviane. Os problemas
seguintes são de planejamento, seguido do fluxo de caixa, negociação e
vendas. “O empreendedor precisa estruturar como ele vai se organizar
para atender os clientes e o que ele pode fazer para vender mais”,
enumera.
Melo ressalta que o procedimento de estudo do negócio
garante melhor retorno. “Algo que é muito importante é o cuidado do
empreendedor com a formação de preços, ele tem que lucrar e garantir
rentabilidade, mas precisa ser competitivo também”, avalia. “Não se pode
formar preço sem fazer a pesquisa de pública e de mercado, ela é
decisiva muitas vezes”, corrobora Viviane.
Frequentemente, a
informação é o ponto de partida para o sucesso ou para o fracasso.
“Infelizmente, muitas vezes, a falta de orientação prejudica muitos
negócios que chegam a fechar. Por outro lado, pessoas que se estruturam e
cuidam da gestão e sabem atender adequadamente seus clientes têm chance
de sucesso maior”.
Acesso ao microcrédito incentiva a expansão de empreendimentos
O
acesso ao microcrédito, garantido aos microempreendedores nas
principais instituições financeiras do País, é um dos incentivos para
expansão dos negócios. Prova do potencial de crescimento decorrente do
estimulo é o caso da empreendedora Camila de Sousa Silva, que recorreu
ao Programa Gaúcho de Microcrédito (PGM) para alavancar as vendas. “A
formalização garantiu acesso aos bancos e eu pude abrir conta no Itaú,
na Caixa Econômica Federal e, depois, conheci as linhas de crédito do
Banrisul”, diz. Camila aderiu ao PGM junto ao Banrisul e aumentou o
estoque de produtos. “Ajudou muito e deu para sentir o impacto do
investimento. Nossas vendas aumentaram 40%”, avalia.
Os
empréstimos vão de R$ 100,00 a R$ 15 mil com taxa de juro de 5% e prazo
de até 24 meses, explica o superintendente da Unidade de Microcrédito do
Banrisul, Sérgio Citolin, lembrando que os valores podem ser usados
como capital de giro ou investimento e o que microempreendedor precisa
ter uma atividade produtiva e estar cadastrado junto ao Portal do
Empreendedor. Lançado em 2011, o programa já beneficiou 27,3 mil
pessoas, totalizando R$ 211 milhões em crédito concedido.
A
vantagem vem acompanhada, também, da orientação, para que a obtenção do
crédito seja coerente e condizente com as necessidades do empresário.
“Dentro do programa, temos a figura do agente de oportunidade, que faz
um levantamento socioeconômico para avaliar capacidade de pagamento e a
necessidade do microempreendedor”, explica Citolin. O objetivo, atesta o
superintendente, é alavancar o MEI.
“Temos uma adimplência que é
muito significativa”, garante Citolin, destacando que a perda de
crédito do banco é inferior a 1%. “Isso é decorrente de uma avaliação
correta da capacidade de pagamento e também de o microempreendedor ser
bem selecionado, apoiado, orientado e da garantia colateral (um
avalista), além do que o Estado é um bom apoiador”, sintetiza.
O
superintendente reforça que a expansão do negócio, para ser
bem-sucedida, deve vir imbuída de cuidados que voltam a revelar a
importância de análise constante nas escolhas do microempreendedor. As
dicas, elenca, são tomar o crédito na medida certa (nem a mais e nem a
menos) e colocar a capacidade de gerenciamento para o negócio,
estruturando um bom fluxo de caixa. Também é preciso negociar com
fornecedores e investir em um bom pessoal para vender.